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Produtos marcados com 'Bordallianos'

A Banca

O dinheiro é tão bonito, Tão bonito, o maganão! Tem tanta graça, o maldito, Tem tanto chiste, o ladrão! O falar, fala de um modo... Todo ele, aquele todo... E elas acham-no tão guapo! Velhinha ou moça que veja, Por mais esquiva que seja, Tlim! Papo. E a cegueira da justiça Como ele a tira num ai! Sem lhe tocar com a pinça; E só dizer-lhe: «Aí vai...» Operação melindrosa, Que não é lá qualquer coisa; Catarata, tome conta! Pois não faz mais do que isto, Diz-me um juiz que o tem visto: Tlim! Pronta. Nessas espécies de exames Que a gente faz em rapaz, São milagres aos enxames O que aquele demo faz! Sem saber nem patavina De gramática latina, Quer-se um rapaz dali fora? Vai ele com tais falinhas, Tais gaifonas, tais coisinhas... Tlim! Ora... Aquela fisionomia É lábia que o demo tem! Mas numa secretaria Aí é que é vê-lo bem! Quando ele de grande gala, Entra o ministro na sala, Aproveita a ocasião: «Conhece este amigo antigo?» — Oh, meu tão antigo amigo! (Tlim!) Pois não! “O dinheiro” João de Deus, in Campo de flores

Cactus

O cacto opuntia ficus-indica, tal como o caracol, já tem uma longa história. Transitaram entre pinturas, gravuras, filmes. E há anos que aparecem em variados trabalhos de Susanne Themlitz. Para a edição de 125 exemplares da comemoração dos 125 anos da Fábrica Bordallo Pinheiro, a artista apresenta-nos um fragmento de cacto com caracol em faiança. Este suporte para alimentos (queijo, carnes frias... e, por que não?, para caracóis) sobre uma mesa resulta numa natureza-morta. Algo que parece ter ficado congelado ou parado no tempo, graças à sua matéria. Por isso, talvez o termo inglês still life (= vida parada, ainda vida) vá mais ao encontro desta ideia. Uma mesa posta ou um aparador com este cacto concebido por Susanne Themlitz, este still life, altera-se constantemente, devido à movimentação dos objetos e das próprias pessoas, das suas perspectivas. Se, por um lado, na terrina o ‘guarda-rato’ (produção Museu & Fábrica Bordallo Pinheiro, 500 exemplares, 2005, Susanne Themlitz) pode parecer à mesa um animal algo grotesco e até descontextualizado por estar ali e em cima duma terrina pedra-lunar, por outro lado, a atual peça dos 125 anos da Fábrica Bordallo Pinheiro também tem algo de surreal. Uma mesa com a peça da artista e outros elementos pode levar-nos a fazer associações a outros objetos e paisagens, como os que já conhecemos das montagens de Susanne Themlitz em escultura, fotografia, desenho e vídeo. Na base de alguns espinhos do opuntia ficus-indica em faiança encontram-se orifícios para palitos / função de paliteiro – por sua vez também objetos que picam, mas destinados a uma outra função: espetar cubinhos de queijo, azeitonas, caracóis ou simplesmente palitos, evidente referência aos animais-paliteiros de Bordallo Pinheiro.

Dueto

O ambicioso programa estético criado e desenvolvido por Rafael Bordallo Pinheiro, na fábrica por ele fundada nas Caldas da Rainha, consagrou-nos um dos mais arrojados e singulares projectos artísticos implementados em Portugal. A fortuna de, ainda hoje, mantermos um núcleo significativo dessa herança acarreta a enorme responsabilidade de corresponder à excelência da produção artística cerâmica de Bordallo Pinheiro. A Visabeira tem hoje o privilégio de dar continuidade a um projeto único no mundo, cujo bom desempenho empresarial só será certamente garantido pelo profundo conhecimento e pelo justo reconhecimento do valor artístico da obra de Rafael Bordallo Pinheiro. Dueto comemora os 125 anos da fundação da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha reunindo, numa peça exclusiva, o trabalho de dois dos mais relevantes e influentes artistas portugueses: Rafael Bordallo Pinheiro (1846-1905) e a artista contemporânea Joana Vasconcelos. Uma surpreendente coreografia interpretada por andorinhas e peixes (goraz) em cerâmica dá forma a Dueto, centro de mesa concebido por Joana Vasconcelos a partir dos moldes originais desenhados por Bordallo Pinheiro. O excepcional e rigoroso traço naturalista dos diferentes elementos — simultaneamente protagonistas e suporte estruturante da composição — colaboram na inesperada dança, plena de dinâmica e sentido cromático, onde andorinhas e peixes parecem celebrar a riqueza do legado artístico da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha.

Elefantes

Fernando Brízio Conheço há alguns anos dois elefantes que vivem nas traseiras da Fábrica de Faianças Bordallo Pinheiro. Vivem na companhia de caracóis, rãs, galinhas, patos, abelhas, muitos pássaros e outros animais. Guardo boa memória do dia em que conversamos pela primeira vez, ficamos amigos. Quando me pediram para desenhar uma peça para os 125 anos da Bordallo Pinheiro, fui pedir-lhes ajuda. Eles vaguearam pelo museu da fábrica, escolheram taças, potes, vasos e começaram a empurrá-las. Gostei do que fizeram. São eles os autores das coisas que fiz para este aniversário... limitei-me a observar.

Gosto Tanto de Ti

Foi divertido pegar numa rã com um ar estoico e, mudando a posição da mão e substituindo os longos pés por sapatos de salto alto, transformá-la numa rã atrevida pronta para amar. Foi isso que aconteceu a caminho da fonte. Sentou-se num cogumelo com o seu amado, esqueceu-se da bilha no meio de uma relva selvagem e ficou assim para todo o sempre.

Lisboa

Esta é a cidade onde nasci. Lisboa é misteriosa e luminosa como mais nenhuma. Tem tantas cores, tantas esquinas e tantas vistas que nunca nos fartamos. Este tabuleiro é o “chão” da cidade e as pirâmides as suas colinas. Os quadrados podem ser muitas pessoas, casas, ruas e jardins. Mas também o rio. Pode-se juntar como se quiser e pode acolher o que se quiser. Lisboa foi também, antes das Caldas, a terra onde viveu e trabalhou Bordallo. Estava ele longe de imaginar o que eu iria fazer, mais de um século depois, com as suas peças. Espero que não se importe, até porque é uma homenagem.

Menina Saxe

Menina Saxe aborda o conceito do imaginário plástico e visual de Rafael Bordallo Pinheiro. A desconstrução de uma jarra, inspirada na cerâmica de Saxe, deu início a uma íntima narrativa que levou à metamorfose. Um percurso criativo na senda de registos de identidade rumo à idealização de um tributo à própria cerâmica e sua poderosa alquimia. Menina Saxe surge enigmática, adornada de folhas de acanto e vestida do areado bordaliano. Resolvi coroá-la com as andorinhas de Rafael Bordallo Pinheiro que, em consílio, parecem combinar mais uma viagem através dos tempos pelos caminhos da criatividade. Também a lagartixa rodopia de êxtase com tal ideia qual espírito bordaliano. Menina Saxe evoca os primórdios da cerâmica das Caldas na figura da mítica Maria dos Cacos, a azulejaria portuguesa, com as suas cercaduras em folhas de acanto pintadas a azul cobalto, a Rainha D. Leonor, fundadora da cidade das Caldas, e a multiplicidade de estilos na excelência da cerâmica bordaliana.

A Última Lagosta

Nesse trabalho eu busquei uma linguagem em diálogo com a minha obra. Um contexto fantástico, onde os animais grandes invertem sua escala com a lagosta e a atacam. A lagosta agigantada vira centro de prato para o reino animal degustar esse prato tão caro e requintado. Com um tom dramático de sangue, faz-nos pensar que somos os próximos a atacar esses animais comestíveis que ali se encontram, numa bandeja, prontos para entrarem no forno.

As Paredes Têm Ouvidos

Cheguei a Lisboa em um sábado de manhã e nesse mesmo dia à tarde já estava fotografando as peças de Bordallo nos dois museus de Caldas da Rainha. Logo fui “abduzido” por este porta-cartas. O fato de a peça ser mais subjetiva, uma enorme orelha de parede, absurda, flertando com o surrealismo, me agradou subitamente. Além do fato de conter um dito popular, não menos surreal, recurso que normalmente utilizo em certos trabalhos meus. Soube que o molde precisaria ser restaurado. Era uma oportunidade de trazer de volta um trabalho genial já fora de produção. Optei por manter a peça tal como era e fazer uma interferência pontual que tivesse efeito tanto na forma quanto na mensagem. Sempre pensei nesse provérbio popular como um atestado de pequena paranoia, surreal, confundindo as paredes com pessoas, como se tudo que falamos interessasse aos demais. Aí é que pensei que ela poderia estar distraída por outros assuntos, ao invés dos nossos, e pensei no auricular, fac-símile ampliado do da Apple, tão difundido no mundo contemporâneo. Aproximando dois objectos com desenhos realizados em tempos tão diferentes, cem anos entre eles, tive a oportunidade de prestar homenagem a dois gênios, Bordallo Pinheiro e Steve Jobs, além de criar um novo contexto, uma nova peça, com humor, também uma marca de Bordallo.

Assombrada

O projeto para fazer a Assombrada começou com precaução. Compreendeu estudar Bordallo Pinheiro e recolher informações sobre o artista, até o momento de encomendar pequenas rãs em chacota para fazer estudos prévios. Mas, mesmo quando o terreno é o das afinidades, como acoplar poéticas – a minha e a dele – sem que qualquer das duas entre em dissolução? Como entrar numa conversa apertada com o outro artista – um outro como este, de obra forte, crítica e desbordada –, para que do acoplamento resulte de fato uma qualidade nova? Por tudo isto foi que optei pela silhueta fiel da minha mão, como signo autobiográfico, um tipo de marca e sombra de mim mesma – para se associar às rãs de Bordallo, as inconfundíveis rãs bordallianas, sua marca preferida. Com elas empilhadas em cima da mão, em amontoado alto, precário, e ainda recobertas virtualmente por outra sombra preta, tentei criar – com as rãs e a mão – uma espécie de ideograma visual que ressignificasse aquela sua estranha junção sobre a tampa da terrina. Indissociáveis, mão e rãs deveriam contar uma mesma história. Contudo, em Assombrada, propositalmente não fica claro se é a sombra da minha mão que agarra e contém aquelas pequenas rãs, para expressar domínio, ou se foram as rãs que irromperam e cresceram inesperadamente – pretas, como numa assombração – em cima da minha mão escura, para imobilizá-la sobre aquela tampa de terrina.

Beijo

Para o trabalho Beijo, escolhi elementos do trabalho de Bordallo Pinheiro que privilegiam a forma e seus contornos. A escolha dos vegetais – o pimentão, o rabanete e o aspargo – foi uma aproximação imediata, já que costumo trabalhar a partir de frutas e vegetais. Foi um desafio escolher entre tantas formas delicadamente esculpidas; havia também os milhos, os abacaxis, as abóboras... Depois saí à procura dos vasos, forma que tenho elegido como essencial para meu trabalho, como se todo o fazer artístico pudesse ser discutido a partir dos primeiros impulsos do trabalho com barro (assim gosto de acreditar...). Neste trabalho, dois vasos se encontram e se complementam, seus contornos quase se encaixam: de um lado, o vaso cabaça oferece suas curvas ao contraste com seu geométrico par – este criado a partir dos azulejos de bico de Bordallo, aqui remodelados, verticalizados, formando uma coluna. Um dos elementos do “beijo” se manteve útil (há um aspargo surpresa servindo de rolha à tampa-rabanete), enquanto o vaso geométrico já nasceu escultórico e fechado. Tal contradição reflete aspectos da convivência entre objetos utilitários e objetos de arte.

Bizantino Com Fumaça

Admirador de longa data que sou da obra bordaliana, quis aproveitar a oportunidade deste projeto para conhecer mais intimamente uma das minhas esculturas favoritas de Bordallo Pinheiro: o Gato bizantino. Comecei simplesmente retraçando com os dedos os padrões da superfície ainda úmida do Gato recém-saído do molde, como uma maneira de estudar a topografia da peça, e gradualmente adicionei a ela elementos do léxico escultórico que exploro no meu próprio trabalho. Enfatizei esses efeitos utilizando os maravilhosos esmaltes escorridos da Fábrica BP e – finalmente – propus a inversão em certa maneira do uso original da peça, transformando-a de escarradeira em incensário, ou seja, passando de um movimento (líquido) pra baixo para um movimento (de fumaça) pra cima. Foi um imenso prazer poder desenvolver esta escultura em cima de um trabalho que tanto admiro e poder contar com o apoio da maravilhosa equipe da Fábrica BP nesta empreitada: obrigado, mais uma vez, a todos!